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Parecem significativas as diferenças de gênero e do sistema serotoninérgico tanto entre animais quanto em seres humanos. Mirko Diksic, Sadahiko Nishizawa e sua equipe, da Universidade McGill, EUA, produziram recentemente o exemplo mais dramático: para medir a síntese de serotonina no cérebro humano, eles desenvolveram uma nova técnica usando neuroimagens de PET e descobriram que a capacidade de síntese média era 52 % mais alta entre os homens do que entre as mulheres. Os pesquisadores observaram que, com exceção dos sítios receptores de estrogênio, a diferenciação de gênero no cérebro era uma das maiores já encontradas. A capacidade mais baixa de síntese de serotonina no sexo feminino pode aumentar o risco global de depressão especialmente quando os estoques de serotonina se esgotam durante o stress ou as escuridões do inverno.
Meir Steiner e seus colaboradores, da Universidade Mc-Master, EUA, sugerem que se a serotonina faz a mediação entre o organismo e seu meio e se o neurotransmissor é regulado de forma diferente entre os sexos, ela pode explicar o padrão diferente não só da depressão, mas também das doenças psíquicas entre os dois gêneros. Especificamente, por que a depressão e a ansiedade são mais comuns em mulheres, e o alcoolismo e a agressividade são mais comuns entre homens. Assim como o baixo nível de serotonina, associado a esse transtornos femininos, também foi encontrado no cérebro de masculino com problemas graves de alcoolismo e agressividade.
Tais diferenças de gênero no sistema serotoninérgico asseguram que as elas reagem ao stress com distúrbios psíquicos que envolvem inibição, ao passo que eles respondem ao stress com a perda de controle do comportamento. Steiner sugere que tais diferenças de gênero no sistema serotoninérgico evoluíram porque a criação dos filhos, no fundo, foi mais bem sucedida - no sentido estrito de mais crianças que sobreviveram até a idade adulta - nas espécies em que fêmeas contiveram seus impulsos agressivos.
O pesquisador adepto da tendência de explicação sociológica ou da psicológica das diferenças entre os gêneros poderá argumentar contra a teoria de Steiner alegando que os homens são socialmente treinados para reagir ao stress de modo mais extrovertido, daí o alcoolismo e a agressividade. Enquanto a sociedade incentiva a mulher a reagir recolhendose, daí o comportamento introvertido, e a depressão. Para sustentar essa idéia, eles apontariam estudos epidemiológicos realizados com populações religiosas, como a judaica ou amish. Nessas comunidades, o alcoolismo é bem menos comum do que na população em geral, mas, curiosamente, os índices de depressão são altos nos dois gêneros.
Esses dados contraditórios não deixam dúvidas de que as explicações por trás da depressão e de outras doenças psíquicas não são únicas nem cristalinas. Influências biológicas e sociais não apenas coexistem, mas provavelmente reforçam umas as outras.

 
 

 

De qualquer forma, deveríamos esperar que a socialização dos padrões de gênero evoluísse, de modo que as diferenças biológicas entre os sexos se complementassem. Em outras palavras, optaríamos por fortalecer a criação em vez de nos opormos à natureza. E já que criação envolve aprendizado — e ele ocorre quando certas conexões neuronais são reforçadas; está claro que criação e Natureza são partes intimamente associadas aos processos biológicos.


Os cientistas fizeram grandes progressos no tratamento da depressão. Com o advento de antidepressivos como o Prozac - que age no sistema serotoninérgico; mais de 80% dos doentes, hoje, respondem à medicação ou à psicoterapia, ou à combinação dos dois. Mas muito mais trabalho ainda resta a ser feito.

 

UM MAL QUE SE ALASTRA

Do ponto de vista epidemiológico, os dados que concernem à depressão se mostram preocupantes. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que a depressão é atualmente a doença psiquiátrica mais diagnosticada: ocupa o quarto lugar entre os maiores problemas de saúde do Ocidente e é a segunda causa de invalidez, precedida apenas pelas doenças cardiovasculares. O chamado distúrbio depressivo maior (antiga depressão endógena), caracteriza-se por, pelo menos, duas semanas de humor deprimido ou perda de interesse na maior parte das atividades, acompanhadas de ao menos quatro sintomas como sentimentos de desesperança, desvalia, culpa e desamparo, associados a alterações de apetite e sono, fadiga, retardo ou agitação psicomotora, diminuição do desempenho sexual, dificuldade de concentração e raciocínio e pensamentos recorrentes sobre a morte, com ou sem tentativas de suicídio.
A prevalência é de 2,3% a 3,2% para o sexo masculino e de 4,5% a 9,3% para o sexo feminino. Além disso, o risco de sofrer de um distúrbio depressivo maior no decurso da vida é de 7% a 12% para os homens e de 20% a 25% no caso das mulheres. Os fatores de risco aumentam para o sexo feminino (tornando-se ainda mais elevados no período pós-parto), quando parentes de primeiro grau já sofreram da doença ou ocorreram episódios anteriores de depressão maior. Mulheres são duas vezes mais vulneráveis à distimia do que os homens, ao passo que a depressão maior as atinge três vezes mais.

 

Continua
 

 

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