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Por que elas deprimem mais
As
mulheres podem ser mais sensíveis - pelo menos psicologicamente - a
certas mudanças no meio social. Essa característica ajuda a explicar os
altos índices de depressão no universo feminino
POR ELLEN LEIBENLUFT
Chefe da Unidade de Distúrbio Bipolar da Clínica de Psicologia do
instituto Nacional de Saúde Mental dos Estados Unidos.
Os sintomas variam de um simples desconforto aos distúrbios do sono,
sensação de vazio, desesperança, de inutilidade, dificuldade de
concentração, fadiga e, claro, falta de libido. Com muita freqüência,
passam despercebidos no início. O mal mul-tifacetado da depressão afeta
quase 20% da população feminina. A prevalência é muito maior que nos
homens. A proporção é de dois para um. A grande questão é o porquê de
tanta diferença entre os gêneros. Alguns profissionais da saúde mental
apontam à psicologia, argumentando que o sexo feminino é bem mais
treinado para reconhecer seus sentimentos e buscar ajuda, atraindo assim
mais atenção dos especialistas. Outros sugerem que a discriminação
maior, que sofrem socialmente, seria responsável por tamanha diferença.
Alguns atribuem o alto índice de depressão entre mulheres ao sistema
reprodutivo e ao ciclo menstrual, o que não deixa de ter fundamento. Mas
não é tão simples assim. Dados coletados em diversos de estudos mostram
claramente que a patologia tem raízes psicológicas, ambientais e
biológicas. A neurociência tem constatado que essas origens podem
reforçar umas às outras. Em outras palavras, um aumento do risco de
depressão feminina pode ter origem tanto na genética quanto na reação a
situações estressantes e pressões sociais, ou, ainda, ser resultado da
combinação desses três fatores. Neuroimagens obtidas por tomógrafos
revelam que fenômenos psicológicos, como raiva e tristeza, têm suporte
biológico,- é possível ver os circuitos das células cerebrais em
atividade, quando essas emoções aumentam.
Simultaneamente, as neuroimagens confirmam que experiências ambientais e
psicológicas podem alterar a química do nosso cérebro. Levis R. Baxter e
seus colegas da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, por exemplo,
encontraram alterações similares em tomografias de pacientes com
transtorno obsessivo compulsivo (TOC), que reagiram ao tratamento,
independentemente de o paciente ter sido tratado com medicação ou com
terapia comportamental. Para descobrir por que a depressão é mais comum
entre mulheres, cientistas buscam entender como a genética e o meio
distinguem os sexos — e como os dois conspiram para produzir os sintomas
que descrevemos como característicos da depressão. E um trabalho
difícil, cujo progresso é lento. Mas chama a atenção como alguns fatores
ambientais - incluindo stress, alterações sazonais e competitividade
social - podem produzir reações psicológicas diferentes nos dois sexos.
Essas descobertas são pequenas peças daquilo que vem a ser um incrível e
complexo quebra-cabeça. Relacioná-las nesse estágio não encerra a
explicação sobre essa duplicidade sexual de padrões da depressão. No
entanto, poderia ajudar os cientistas a desenvolver tratamentos
individuais para sua manifestação tanto para mulheres quanto em homens
nesse meio-tempo.
Muitos cientistas sempre cogitaram se existe algum truque no modo como a
depressão é herdada, e se pais ou avós deprimidos são mais propensos a
passar uma predisposição à depressão para seus descendentes do sexo
feminino do que para os do sexo masculino. Com base em estudos que
traçam históricos familiares de depressão, a resposta a essa questão
parece ser negativa. Mulheres e
homens com hereditariedade similar, estariam do mesmo modo, propensos a
desenvolver o transtorno. Traçar simplesmente histórias familiares, sem
considerar as influências do meio, pode não oferecer um quadro completo
de como a depressão é herdada.
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O pesquisador Kenneth S. Kendler e
sua equipe, da Faculdade de Medicina da Virgínia, descobriram num estudo
com 2.060 gêmeas que a genética pode influenciar no modo como elas
reagem às pressões do meio. Os pesquisadores exa-minaram gêmeas com e
sem histórico de depressão na família; algumas, dos dois grupos tinham
experiências de traumas recentes, como a morte de alguém querido ou um
divórcio. A investigação revelou que os eventos estressantes aumentaram
em apenas 6% o risco de depressão entre as mulheres sem histórico da
doença da família. Mas entre as mulheres que tinham histórico, o mesmo
risco foi de quase 14%. Essas, aparentemente, teriam herdado a propensão
de desenvolver depressão em situação de crise.
Infelizmente, não foi feito um estudo semelhante em homens, ficando em
aberto a dúvida se o stress produzido pelo meio e o risco genético de
depressão interagem do mesmo modo nos dois sexos. Mas estão sendo
realizados levantamentos para determinar se homens e mulheres estão, em
geral, sujeitos ao mesmo tipo e intensidade de stress. Estudos de cunho
hormonal sugerem que não. Hormônios não são novidade nas pesquisas sobre
depressão. Muitos se perguntam se os hormônios ovarianos, estrogênio e
progesterona - cuja flutuação cíclica nas mulheres regula a menstruação
- podem representar um risco maior para o transtorno. Existem pelo menos
duas possibilidades.
Devido à diferença entre os cromossomos X e Y, o cérebro masculino e o
feminino são ex-postos a ambientes hormonais diferentes no útero. Essas
diferenças hormonais podem afetar o desenvolvimento cerebral de modo que
apresente vulnerabilidades e reações psicológicas divergentes diante de
uma situação de stress, ao longo da vida. De fato, experiências com
animais mostram que influências hormonais no início da vida produzem
consequências comportamentais mais tarde, embora seja difícil estudar o
fenômeno em seres humanos.
O fato de homens e mulheres na pós-puberdade apresentarem diferentes
níveis de esteróides gonadais em circulação pode, de algum modo, ter a
ver com maior risco de depressão para a mulher. Pesquisas mostram que
garotas se tornam mais suscetíveis à depressão do que garotos somente
após a puberdade, quando começam a menstruar e a receber os pulsos
hormonais. Ainda assim, cientistas nunca conseguiram estabelecer uma
relação direta entre estado emocional e nível de estrogênio e
progesterona no sangue feminino. Os pesquisadores PeterJ. Schmidt e
David R. Rubinow, do Instituto Nacional de Saúde Mental de Washington,
demonstraram que dosagens desses hormônios não afetam diretamente o
humor, exceto em mulheres que sofrem alterações emocionais drásticas no
período pré-menstrual. O que parece, no entanto, é que o estrogênio, ao
preparar o corpo para reagir ao stress, abre o organismo para a
depressão entrar. Durante esses períodos, as glândulas supra-renais -
que se localizam sobre os rins e são controladas pela glândula
pituitária no cérebro - secretam níveis maiores de um hormônio chamado
cortisol, que aumenta a atividade metabólica do corpo e imuniza o
sistema, entre outras coisas. No curso normal, o stress eleva a secreção
de cortisol, mas esses níveis elevados produzem um efeito retroativo
negativo na pituitária, que faz o grau de cortisol, gradualmente, voltar
ao normal.
Estão surgindo evidências de que o estrogênio pode não apenas aumentar a
secreção de cortisol, mas diminuir sua capacidade de interromper a
própria produção. O resultado seria uma reação ao stress não só mais
pronunciada nas mulheres do que nos homens, mas também mais duradoura.
Continua
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