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O passageiro

Um caso de perversão1

 

Décadas atrás, a sociedade costumava chamar de pervertido aquele que colecionava revistas pornográficas ou que madrugava para ver os filmes eróticos que passavam na TV. Porém com o passar dos anos, esses comportamentos, foram absorvidos pelo mundo moderno e tornaram-se algo bastante "comum".
A sociedade evoluiu. E com essa evolução surgiram novos comportamentos e novas modalidades de perversão. O que chama a atenção não são as novas práticas, mas, sim, como as pessoas planejam e executam seus planos.
A tranquilidade e naturalidade com que Celso, o personagem desta história, conta suas "viagens" pelo mundo da perversão nos leva a uma nova discussão sobre a evolução do problema, os novos sintomas e as formas como deve ser tratado. Confira.


Freud, nos primórdios de sua fundação do campo psicanalítico, rompeu com uma parte do discurso médico-psiquiátrico, desenraizando o campo das perversões da ótica do desvio e da degeneração. Assim, trouxe a sexualidade polimorfa perversa para o cerne da subjetividade, descobrindo a articulação genial de o que o neurótico reprime tem como base um gozo perverso na fantasia ou eventualmente em atos. Porém, eles são recheados de culpabilidade, numa era na qual as barreiras de moral, pudor e vergonha do século XIX para o XX ainda não tinham sofria os avatares da razão instrumental cínica perversa das montagens sádicas como na era do nazismo, até a narcotização globalizada, seja pelas drogas (legais e ilegais) até a globalização do mercado livre dos excessos e dos descartáveis
O telefone toca. Do outro lado da linha, uma pessoa que deseja marcar uma entrevista para um possível início de análise. Diz ter "pouco tempo" e "poucos recursos". Marcamos um horário em comum.
Seu nome é Celso e tem cerca de trinta e poucos anos. Diz ter feito uma análise anterior com uma mulher, mas desistiu ao perceber que, após um ano, o que era para ser uma relação profissional tornou-se um encontro de amigos. Segundo ele, a protegeu e a salvou de muitas coisas. Ri.
Durante a conversa, Celso pergunta sobre dias, horários e preço. Depois comenta que estava fazendo várias entrevistas desse tipo e quê escolheria pelos números.

Um pouco mais à vontade, revela ter consultado um clínico, pois queria saber o motivo de tanto cansaço, fraqueza. O especialista encaminhou-o a um psiquiatra que diagnosticou o problema: depressão. Celso foi medicado com antidepressívos, mas apresentava extrema dificuldade em externar informações que pudessem ajudar no tratamento. Por isso, foi encaminhado ao meu consultório.

Ele estava desempregado, andava bebendo muito e chegou a fazer uso de cocaína. Disse que não conseguia retomar seu trabalho e que seus vínculos profissionais estavam parecidos com os amorosos: não andavam onde ele queria, tinham rota própria. Ou seja, ele ficava como mero espectador, conduzido pela direção alheia. Perguntei se isso o fazia se lembrar de algo. Marcamos um segundo encontro.No início da segunda entrevista, Celso conta que, no último emprego, paquerou o pretendente do chefe, fato que levou à sua demissão.

 

 

 



(1)0 artigo apresenta o resumo clínico de um caso de perversão. Ele soreu algumas alterações com vistas à preservação do sigilo psicanalítico.

 
 

 

 

 


  Disse que buscava homens com pênis grandes, já que o dele não passava de pequeno, de criança, ou "de mulher". Ri sardonicamente.
Celso passa a relatar inúmeros episódios nos quais terminava com alguém, seja profissionalmente ou amorosamente. A tranquilidade é a mesma de quem pegou o ônibus errado.

Ao ser indagado sobre esse ônibus errado, volta a tocar no assunto dos números de sessões, números de pagamento e horários.
Fiz ao todo sete entrevistas, com cerca de uma hora e meia cada uma. Todas recheadas de queixas físicas, cuidados médicos, drogas, efeitos colaterais dos antidepressivos. Porém, num certo momento, interrompe a conversa para dizer que deseja contar algo que não tinha falado a ninguém, nem para a antiga analista, porque era mulher, nem para o clínico e muito menos para o psiquiatra. Aliás, ele acrescenta que, em suas relações, sempre escondia algo; gostava de enganar, isso lhe dava prazer. Por isso, passava pouquíssimo tempo nos trabalhos temporários, mudava muito de endereço e até de cidade. Daí a necessidade em resolver logo os números da análise. Celso volta a mencionar o fato de ter feito entrevistas com outros profissionais. Insisti na pergunta: isso o fazia se lembrar de algo? Irritado, conta sem parar que, desde muito cedo, com 9 ou l O anos de idade, entrava no primeiro ônibus e sempre ia até o ponto final, onde masturbava o motorista. Era importante pegar um ônibus vestido de aluno, tanto durante as aulas do colégio quanto depois. E adorava nomear os motoristas pelos números.
Aos 12 anos, passou a fazer isso com taxistas. Sentava-se à frente, ao lado do motorista. Diz que sentia muito prazer em decorar as placas também.
Refere que, antes disso tudo começar, havia sido sodomizado por um primo oito anos mais velho. O parente usava o judo como pretexto para penetrá-lo analmente.
Com incentivo do tio, Celso tentou por diversas vezes ter relação sexual com mulheres, porém todas redundavam em impotência, falta de desejo, tesão. Desde então, autodenominou-se homossexual e desistiu das mulheres, dizendo: "elas não têm o que gosto".


PSEUDOCOMPULSÕES


Perguntei sobre sua análise anterior e ele comenta que adorava mentir para a analista, assim como fazia com seus pais. E diz, também, que "exagerou" ao fazer muitas entrevistas. Acreditava que, dessa forma, arrumaria bons números. Foi lendo um de meus livros que ele vislumbrou a possibilidade de poder ajudá-lo nessas "pseudocompulsões".
Tentei entender o que ele quis dizer com "pseudocompulsões". Em uma tentativa de resposta, disse que um psiquiatra anterior havia lhe passado duas medicações: um antidepressivo e um remédio para controlar impulsividades alimentares, ou toxicomanias. Antes de pedir a opinião dele sobre o assunto, Celso, pertinentemente, conta que uma amiga sofria de compulsão alimentar e que não conseguia tomar apenas uma taça de sorvete. Tinha de tomar dois potes ou mais de dois litros. O mesmo acontecia com hambúrgueres. Tinha de comer entre 10 e 15. Porém, a falta de controle a fazia sentir-se muito mal. Por mais que tentasse lutar contra isso, não conseguia.
Ele continuou citando exemplos de amigos: um tinha compulsão por compras, outro por jogo e assim por diante. Terminou dizendo que eles eram uns "fracos", pois se diziam

 

continua
 

 

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