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Parte 1

Parte 2

Parte 3

 

Aqueles que preferiram a recompensa tardia mostraram atividade maior em áreas como o córtex pré-frontal, conhecido por estar envolvido no planejamento racional.
  A ideia de que o dinheiro pode estimular circuitos vinculados a sistemas de recompensa cerebrais é reforçada por outra descoberta intrigante. Numa tentativa de fornecer uma explicação evolucionária para nossa motivação na busca por dinheiro nas sociedades atuais, a pesquisadora Barbara Briers, da Escola de Negócios HEC, em Paris, decidiu testar se nosso interesse por dinheiro estava diretamente relacionado ao nosso apetite por comida.
  Ela e sua equipe fizeram três descobertas, publicadas no volume 17 da Psychological Science; voluntários famintos estavam menos propensos a fazer doações para caridade do que aqueles que estavam satisfeitos.

Aqueles que foram preparados para ter grande desejo por dinheiro, imaginando que tivessem ganho na loteria, comeram quase todo o doce do teste; já pessoas com o apetite estimulado por ficar esperando sentadas em uma sala com um cheiro delicioso estavam menos propensas a dar dinheiro do que aquelas que aguardavam em salas com odor normal. Para Briers, isso indica que nosso cérebro processa ideias sobre dinheiro e comida pelo mesmo sistema, o que significa que, para a mente, os dois têm capacidade similar de nos satisfazer - ou frustrar.
 

BOM SENSO E AULA PARA APRENDER A INVESTIR
São oferecidos hoje, no Brasil, dezenas de cursos de educação financeira em escolas particulares, faculdades, corretoras e na Bovespa, em São Paulo (onde são gratuitos, já que o objetivo é atrair novos investidores). A proliferação desse tipo de oferta configura um fenômeno similar ao que se deu no início da década de 80 nos Estados Unidos. Há algumas décadas, entretanto, a possibilidade de ter aulas sobre como lidar com a própria vida financeira era impensável. Até porque a ideia disseminada pela cultura católica de que acumular bens pode ser pecaminoso, em contraposição à de que é de fato prazeroso desfrutar confortos materiais, causou paradoxos na cabeça de muita gente. E o dinheiro, embora extremamente desejado, simbolicamente tornou-se, para muitos, ícone de sujeira e constrangimento, justamente por isso é impossível falar dele de forma objetiva, sem levar em conta suas conotações psíquicas.
Também os sentimentos, as variações de humor e os traços de personalidade podem afetar nossas decisões econômicas. Pessoas especialmente ansiosas, por exemplo, podem agir de maneira contrafóbica, ou seja, ficar tão incomodadas com o desconforto de ter de fazer determinado investimento, compra ou venda que terminam por fechar o negócio de maneira precipitada - e equivocada. Deprimidos também correm risco de fazer mau negócio. Presa da apatia ou da auto-estima rebaixada, o paciente pode perder boas oportunidades ou recorrer a aquisições desnecessárias, a fim de tentar aplacar com bens o vazio afetivo.
Mesmo os mais confiantes devem ser cuidadosos e evitar a ilusão de controle, derivada do sentimento mágico (típico do funcionamento mental infantil, mas também presente em adultos) que conduz à falsa certeza de que é possível controlar todas as variáveis e que as previsões que fazemos acerca da realidade vão se confirmar. A imaturidade emocional, independentemente da idade cronológica, também é fator de risco. No comportamento econômico costuma ser característica daqueles que acreditam ser possível obter ganhos mirabolantes, rapidamente e sem esforço, em negócios para os quais raramente estão preparados. Em geral, seguem dicas que não se confirmam. A promessa de lucros fáceis ativa o mecanismo cerebral de recompensa, que desencadeia atitudes compulsivas. Nesses casos, o mais adequado é evitar agir de imediato, já que postergar a ação desativa o mecanismo cerebral. (Da redação)

 

FELICIDADE COMO PRÉMIO
Pessoas com mais dinheiro tendem a ser mais felizes do que as com menos - mas apenas até certo ponto. Essa é a polémica conclusão dos psicólogos Ed Diener, da Universidade de Illinois, em Urbana-Champaign, e Martin Seligman, da Universidade da Pensilvânia, em Filadélfia, ambas nos Estados Unidos, que revisaram inúmeros estudos observando os efeitos psicológicos da riqueza.

 
 

 

 

 

Eles relataram que o impacto do acúmulo de bens sobre o estado emocional não acrescenta mais felicidade, uma vez que a pessoa tenha o suficiente para se alimentar, se abrigar e desfrutar um conforto moderado. Entretanto, a não ser que você esteja nadando em dinheiro, vale a pena continuar comprando seu bilhete da loteria. Quando os pesquisadores Andrew Oswald, da Universidade de Warwick, no Reino Unido, e Jonathan Gardner, da consultoria em negócios Watson Wyatt Worldwide, investigaram uma amostra aleatória de cidadãos britânicos que ganharam prémios na loteria entre £ 1000 e £ 120 mil, encontraram indicadores significativamente melhores de saúde mental entre essas pessoas, comparando-as às que não ganharam nada ou receberam prémios menores.
  Os pesquisadores acreditam que a aquisição de um capital extra deixou as pessoas menos preocupadas com sua vida financeira, e, consequentemente, mais resistentes a doenças relacionadas ao stress. O dinheiro adicional pode não ter comprado a felicidade, diretamente, mas certamente deu aos ganhadores tempo e condição material para aproveitar as boas oportunidades da vida, aprender e se divertir. Porém, mesmo sem a sorte inesperada, é possível fazer com que o dinheiro traga alegrias, se se for cuidadoso ao gastá-lo. O pesquisador Ryan Howell, da Universidade Estadual de São Francisco, nos Estados Unidos, e seus colegas perguntaram a alguns voluntários sobre suas compras recentes. Eles descobriram que as pessoas achavam que "compras vinculadas a experiências", como viagens, idas ao teatro e investimento em cursos, traziam mais felicidade do que aquisições materiais, como roupas ou um carro novo. Uma compra concreta pode custar mais e durar mais tempo, mas uma experiência traz mais prazer.

 

COMEÇAR DESDE CEDO
Aprender a lidar com dinheiro, desde os primeiros anos de vida, é uma tarefa necessária, que pode - e deve - fazer parte da educação infantil. Tanto que, em várias escolas particulares, noções de educação financeira já fazem parte do currículo. Mas costuma ser em casa que os pequenos aprendem as lições mais valiosas, como a de que dinheiro tem finalidades que vão além do consumo propriamente dito, pode proporcionar coisas boas, incluindo experiências de aprendizado, lazer e a possibilidade de ajudar outras pessoas. E não é vergonhoso tê-lo, mas é preciso cuidar do que possuímos, sem exageros. Antes de comprar vale sempre a pena pesquisar e nos perguntar se realmente precisamos daquele bem. Quem destrói o que é de todos termina sempre pagando o preço, ainda que indiretamente. Poupar é um hábito útil e qualquer moeda é dinheiro - afinal, quando somadas, as moedinhas podem garantir um sorvete, um ingresso para o cinema ou uma revista de história em quadrinhos. Que o diga Tio Patinhas.

 

CONTABILIDADE MENTAL

Adicionar R$ 50,00, por exemplo, a uma conta de cartão de crédito que já acumule dezenas de vezes essa quantia parece bem menos extravagante do que pagar esse valor, em dinheiro, por uma refeição. De fato, já foi comprovado cientificamente que quando as pessoas pagam com "plástico" se lembram menos de quanto gastaram do que em situações em que acertam suas contas com dinheiro vivo. Como salienta o economista Richard Thaler, cartões de crédito funcionam como "equipamentos de separação", que desvinculam o prazer da compra da dor do pagamento, empurrando o acerto para um nebuloso futuro. Congelar o seu cartão dá a você a chance de superar o empurrão emocional e agir racionalmente.
Thaler identifica desvios irracionais que levam a distorções da nossa contabilidade mental. Um deles é que a maioria das pessoas tem aversão a perdas - dói mais perder R$ 50,00 do que faz bem ganhar R$ 50,00, por exemplo. E temos a inclinação para avaliar o dinheiro em termos mais relativos do que absolutos - consideramos R$ 10,00 irrelevantes quando fazemos uma viagem internacional, mas não ao pagarmos uma refeição. Da mesma forma, achar R$ 100,00 na rua deixa as pessoas mais felizes do que ter a redução de uma conta de R$ 950,00 para R$ 835,00, mesmo que o ganho real, no segundo caso, seja maior. Estar atento a essa estranha lógica mental das finanças que confunde preço com valor, poder e afeto pode nos ajudar a lidar com a dificuldade financeira - e com a dor que vem dela.

 

 

Fonte: Buchanan, Mark. Porque o dinheiro mexe com sua cabeça. Mente & Cérebro, São Paulo, n. 196, p. 32-39, mai 2009.

 

 

 

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