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Essas pré-emoções simples, positivas ou negativas, se expressam em emoções básicas universais. O psicólogo Paul Ekman, professor da Universidade de São Francisco, demonstrou em estudos pioneiros que a expressão facial emocional é idêntica em todas as culturas

 

ORGULHO OU VERGONHA?


Ainda há controvérsias sobre quantas emoções básicas existem exatamente, mas vamos partir, inicialmente, de quatro: medo, felicidade, tristeza e raiva. Elas caracterizam nossas reações a desafios fundamentais da vida (perigo, auto-eficácia, separação ou perda e expectativas frustradas) e podem ser encontradas em todas as culturas humanas. As chamadas emoções básicas independem do processo mental consciente, possibilitando, assim, um rápido direcionamento da atenção. Antes mesmo de sabermos se o homem que se aproxima de nós numa rua deserta, à noite, é um inofensivo transeunte ou um possível agressor, já reagimos a ele. O estímulo memorizado como perigoso desencadeia uma reação ancestral - e sentimos medo.
Ao lado desse processamento 5 rápido dos estímulos visuais, existe um outro mais lento e consciente no córtex visual, que permite uma  representação mais exata do objeto - o ladrão ou o estudante que passa indiferente, rumo ao ponto de ônibus. A constatação de que de fato se trata de um criminoso gera confirmação da impressão inicial, assim como reconhecer que o rapaz não oferece ameaça provoca relaxamento do primeiro impulso inconsciente de medo. Por sorte, porém, quando isso se dá a maioria de nós já apertou o passo ou entrou em um prédio ou restaurante, em busca de proteção.
Nos níveis seguintes, os pensa-mentos passam a ter importância cada vez maior. Quando surge a emoção cognitiva primária adiciona-se uma típica certeza que define decisivamente o que sentimos: enquanto a emoção básica de medo surge só porque algo é considerado assustador, a emoção cognitiva primária inclui a certeza de que há situações perigosas por princípio. Estamos, portanto, falando do sentimento de ameaça, ao qual se chega de forma consciente, após avaliação mais acurada. No caso da emoção básica felicidade, por exemplo, uma das emoções cognitivas primárias seria a satisfação - como quando uma pessoa percebe, por exemplo, que uma conversa com o chefe está correndo de forma positiva e que ela pode alimentar esperanças de um aumento de salário.

A emoção cognitiva secundária diferencia-se pelo fato de que, nesse caso, o que está em jogo não é apenas uma convicção, mas toda uma teoria sobre as relações sociais. Uma manifestação do medo como emoção cognitiva secundária, por exemplo, seria o ciúme, ou seja, o temor de uma ameaçadora perda do parceiro. Ao mesmo tempo, insinua-se uma "mini-teoria" sobre expectativas e normas sociais - por exemplo, sobre como a pessoa imagina sua relação com o parceiro ou o seu futuro a dois. Isso depende, porém, da base cultural e das experiências pessoais.
Assim, vergonha e orgulho, por exemplo, têm valores diferentes em uma sociedade ou outra, tanto no que diz respeito aos motivos quanto ao julgamento de comportamentos. No ocidente são mais valorizados a independência e o desempenho pessoal, já entre os orientais a capacidade de conviver harmoniosamente em grupo e a humildade são consideradas
qualidades nobres.

 

 
 

 

Para entender melhor

Imagine que um menino de 10 anos toca com destreza uma sonata para piano de Fréderic Chopin. Depois da apresentação, a mãe elogio-o efusivamente, o que deixa o filho orgulhoso de seu desempenho. A mesma situação, em outra cultura: uma mãe chinesa provavelmente diria ao filho que ele ainda precisaria treinar muito e que cometera alguns erros. A criança, então, tenderia a sentir-se envergonhada. Apesar do mesmo desempenho, o julgamento seria diferente - e, com isso, a reação emocional também. Por outro lado, em algumas sociedades existem sentimentos que nós não conhecemos: o amae dos japoneses, por exemplo, descreve uma profunda gratidão pelo apoio de uma instituição ou pessoa de que dependemos no passado. Nas línguas ocidentais não há sequer tradução para essa palavra.


MARCADORES SOMÁTICOS


O fato é que emoções cumprem funções de grande importância. Podemos citar quatro delas: 1. possibilita avaliarmos os estímulos do ambiente (nós sentimos aquilo que achamos de uma ou outra situação) de maneira extremamente rápida; 2. prepara-nos e motiva-nos para ações (quando sentimos medo, com pulso acelerado e músculos retesados é mais fácil fugir); 3. são formas de expressão típicas que indicam aos outros as próprias in-tenções (quando alguém sorri para nós, automaticamente supomos que tem uma postura amigável); 4. ajuda  no controle das relações sociais. O último aspecto é muito importante porque favorece a convivência: emoções complexas como amor, inveja e ciúme impõem regras e limites no contato com os outros. Quando, por exemplo, nos sentimos atraídos por uma pessoa e nos questionamos se esse sentimento é amor ou não, começamos, em nossa vivência emocional, a ponderar os desejos e convicções do outro e a compará-los com os nossos. O que sentimos funciona como uma espécie de "filtro" para lidarmos com os estímulos tanto internos quanto ex-ternos. Emoções complexas impõem limites e, por meio delas, avaliamos situações, regulamos, motivamos e coordenamos comportamentos. Isso se mostra indispensável no dia-a-dia, pois um processamento emocional prejudicado pode nos causar muitos problemas. Quanto mais é possível perceber o que sentimos - e suportá-lo respeitando os nossos limites e os dos outros - mais fácil fica mar o equilíbrio e nos cuidar.
Os neurobiólogos Hanna e Antonio Damásio, assim como o pesquisador Antoine Bechara, todos Universidade de Iowa, demonstrara na década de 90 que a decisão humana, o planejamento de longo prazo conseqüente concretização de pia-estão atrelados ao sistema de avaliação emocional. Apesar da memória e da fala intactas e do bom nível inteligência, alguns pacientes com problemas neurológicos sistematicamente fazem escolhas equivocadas não conseguem se comportar de acordo com suas percepções racionais.

 

continua

 

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