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ADMINISTRANDO AS EMOÇÕES
Vivemos em busca do equilíbrio entre a razão e a emoção,
em nossa balança temos em um prato a emoção e no outro a razão.
Como buscar o equibrio desta balança, para desfrutarmos de uma melhor
qualidade de vida?
Na ciranda da vida mergulhamos no mar de nossas emoções, ora vibramos
com as fúrias das ondas do prazer e da alegria, ora mergulhamos nas
profundezas do oceano e conhecemos a angústia, o medo e a tristeza.
Conheça melhor O JOGO DAS EMOÇÕES lendo o artigo a seguir.
Retirado da fonte:
NEWEN, Albert. ZINCK Alexandra. O jogo das emoções. Mentes & Cérebro.
n. 195, p.38-45, abr. 2009
Somos o que sentimos ou
sentimos o que somos
Talvez um pouco dos dois... Podemos pensar em emoções como "estados
internos" que resultam da maneira como percebemos nós mesmos e o mundo -
mas nem sempre é possível observá-los e medi-los. O curioso é que
emergem o tempo todo, desde a mais tenra idade, de forma mais ou menos
intensa. Às vezes nos invadem como uma torrente; em outras ocasiões se
instalam de forma lenta, quase sub-reptícia, tomando conta de nossos
gestos, expressões, palavras e pensamentos, desencadeando círculos
viciosos que costumam trazer problemas quando não são interrompidos.
Deflagrada a primeira emoção, em algumas situações é preciso certa dose
de empenho para não deixarmos que se alastre de maneira desmedida, como
se peças enfileiradas de um jogo de dominó empurrassem umas às
outras, até que todas estivessem caídas...
E se, por um lado, a ausência de sentimentos remete à idéia de
transtornos mentais graves - como a esquizofrenia ou a alexitimia,
caracterizadas, cada uma a seu modo, pela impossibilidade de o paciente
expressar afeto, pelo menos convencionalmente -, por outro, o turbilhão
emotivo provoca intenso desconforto psíquico e, não raro, problemas
práticos. Não por acaso, com freqüência as pessoas que procuram ajuda de
analistas ou psicoterapeutas se queixam da dificuldade de equilibrar
emoções e buscam maneiras mais saudáveis de lidar com o que sentem.
Alguns pesquisadores fazem distinção entre as palavras sentimentos e
emoções, mas nos textos do especial, nas páginas a seguir, os autores
optam por recorrer aos termos como sinônimos e, em respeito a eles,
mantemos a terminologia.
Alegria, tristeza, indignação, raiva,
medo... O que sentimos influi em
nossos pensamentos e ações.
Ou seriam resultado do que vivemos e
pensamos? A forma como os afetos
surgem, suas funções e influências
sobre o corpo ainda intrigam pesquisadores
POR ALBERT NEWEN E ALEXANDRA ZINCK
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Conceitos-Chave |
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■ O que
sentimos combina vários
aspectos: excitação física, avaliação
mental, expressão e vivência subjetiva.
As emoções não se contrapõem ao
processamento mental de estímulos do
ambiente, mas o complementam no
dia-a-dia.
■ A primeira teoria das emoções,
desenvolvida independentemente,
pelos psicólogos William James (1842-
1910), nos Estados Unidos, e Carl
Lange (1834-1900), na Dinamarca,
sustenta que a característica central da
experiência subjetiva particular é ligada
aos processos fisiológicos.
■ Pesquisas realizadas há mais de
40 anos mostraram, porém, que os
pensamentos também desempenham
um importante papel no surgimento de
emoções. As pré-emoções e emoções
básicas, assim como as cognitivas
primárias e secundárias podem ser
diferenciadas de acordo com o seu grau
de complexidade. |
Você já contou alguma vez quantos estados emotivos experimenta no
decorrer de um único dia? Antes mesmo de sair do quarto se alegra ao
perceber que o céu está claro e o sol brilha lá fora. Pouco depois,
irrita-se com o metrô que acabou de perder ou com o trânsito
congestionado. Invejoso, espia o belo celular da moça que caminha ao seu
lado ou sente medo do pit bull que um homem leva preso à coleira. No
momento seguinte, irrita-se novamente ao lembrar da longa lista de
pendências no trabalho que terá de cumprir sozinho porque seu assistente
acabou de entrar de férias e ainda não foi designado outro profissional
para ajudá-lo, ou fica constrangido ao dar-se conta de que ontem
esqueceu o aniversário de um grande amigo.
Algumas emoções nos absorvem completamente, outras ressoam
discretamente, algumas são terríveis, outras muito boas mas todas
vão e vêm sem que, na maioria das vezes, possamos influenciá-las. Pelo
menos é o que nos parece. Em muitas ocasiões as pessoas não conseguem
nem mesmo indicar motivos para que determinado sentimento surja, ou têm
dificuldade em perceber o que se passa consigo mesmas.

Afinal, o que acontece conosco, com nosso corpo e nossos sentimentos,
quando nos apaixonamos, nos irritamos profundamente, choramos de
tristeza ou somos inundados por ondas de alegria?
As emoções foram ignoradas durante muito tempo por filósofos e
pesquisadores das ciências naturais em favor da razão ou do pensamento
lógico. Elas eram consideradas processos menos importantes, "ani-malescos"
e até mesmo fatores de distúrbio. Isso se modificou apenas no final do
século XIX - com o surgimento da primeira teoria das emoções,
desenvolvida pelo psicólogo
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americano William James (1842-1910) e pelo dinamarquês Carl Lange
(1834-1900).
Trabalhando de forma independente, os dois pesquisadores postularam que
a característica central das emoções, ou seja, de nossa experiência
subjetiva particular, está vinculada aos processos fisiológicos. Segundo a teoria James-Lange, os sentimentos resultam da percepção do
estado de nosso próprio corpo: são simplesmente aquilo que
experimentamos quando esse estado se altera devido a acontecimentos do
meio ambiente. Assim, por estranho que possa parecer, eles postulam que
não choramos porque estamos tristes,
mas ficamos tristes porque choramos! Nesse sentido, principalmente
Lange, que era fisiologista de formação, considerava que até reações
físicas, como a dilatação dos vasos sangüíneos, fossem emoções. No
entanto, ele reconhecia que, sem a vivência atrelada, as manifestações
corporais permaneciam frias e insípidas.
SENTIR PARA PENSAR
A teoria James-Lange, no entanto, tem um problema: muitas vezes nosso
estado físico não se altera, mas expe¬rimentamos, mesmo assim, diversos
sentimentos - e isso freqüentemente depende apenas do que pensamos, seja
na pessoa que amamos, seja no trabalho extenuante. Essa observação levou
psicólogos a formular uma tese contrária. Segundo ela, nossas emoções
guiam-se pelo conteúdo de nossos pensamentos.
Vamos supor que você está na fila do caixa de um supermercado. De
repente, é empurrado pela pessoa de trás e esbarra em uma senhora à sua
frente. Apesar de você não ter sido o autor do empurrão, a mulher
lança-lhe um olhar indignado - o que inevitavelmente lhe desperta
sentimentos: sente-se mal, fica sem graça e talvez irritado com quem
esbarrou em você. Mas, se acredita que poderia
ter evitado a situação se tivesse prestado mais atenção, então
provavelmente vai sentir vergonha e querer se desculpar.
ESPIÃO E ADRENALINA
Já em 1962, os psicólogos Stanley Schachter e Jerome Singer compro-varam
por meio de um experimento clássico que os pensamentos desempenham um
importante papel no surgimento de emoções. Eles deram aos participantes
da pesquisa um coquetel de adrenalina sem que soubessem os voluntários
foram levados a acreditar que se tratava de uma bebida rica em vitaminas
cujo efeito seria estudado em um teste de visão. Mesmo assim, a bebida
deixou as pessoas fisicamente agitadas. Em seguida, todos foram levados,
um de cada vez, a uma sala de espera onde se encontrava um "cúmplice"
dos coordenadores do experimento, que se comportava de forma bastante
animada. Para alguns ele contava uma piada depois da outra, para outros
se mostrava extremamente irritado pela longa espera. Entrevistas feitas
posteriormente mostraram que os participantes interpretaram a sua
própria agitação física como sinal de alegria ou de irritação — sempre
de acordo com a atitude do homem que lhes fizera companhia.
Já outros sujeitos, aos quais foi explicado que estavam tomando
adrenalina e os seus efeitos, pouco foram afetados pelas emoções
representadas pelo "espião". Ao que tudo indica, portanto, estímulos
internos, assim como a atribuição de sentidos a eles, representam
fatores importantes, que influem diretamente sobre a forma como vivemos
experiências
emocionais e as interpretamos. Conhecer como funcionamos e nos
observarmos, portanto, pode fazer toda a diferença em nossa vida diária.
As teorias cognitivas das emoções apostam na lógica dos pensamentos para
explicar e fundamentar acontecimentos emocionais. No entanto, hoje se
sabe que emoções podem surgir independentemente do que pensamos. Isso
foi comprovado, por exemplo, pelo neurobiólogo Joseph LeDoux, da
Universidade de Nova York. Ele demonstrou em animais que estímulos de
medo são processados de forma extremamente rápida através de um caminho
cerebral percorrido pelo sinal que passa ao
largo do córtex cerebral - a sede da consciência. Esse atalho
possibilita uma reação ágil em caso de emergência, como cheiro de
queimado ou visão de algo perigoso.
As duas clássicas teorias das emoções - a "centrada no físico", de James
e Lange, assim como a cognitiva, de Schachter e Singer - são parciais e
não dão conta da questão. Hoje, psicólogos partem de um modelo de
emoções com vários componentes. Ele inclui pelo menos as seguintes
características: 1. típicas alterações fisiológicas, como coração
acelerado, suor ou inquietação motora; 2. comportamentos específi-cos,
como a mímica corporal; 3. a vivência subjetiva de perceber como é estar
em um determinado estado emocional; 4. pensamentos associados a essa
experiência; 5. existência de "objeto intencional", ao qual se refere a
emoção. É comum que se recorra também a "checagens avaliadoras": entre
outras coisas, primeiramente, deve ser avaliada a novidade de um evento,
pois tudo o que ainda não conhecemos pode se tornar potencialmente
perigoso. Em seguida, coloca-se a questão: se esse acontecimento deve
ser considerado positivo (agradável, útil) ou negativo(temerário,
doloroso, desagradável).
A
isso se segue o julgamento, quando é considerado se a situação se ajusta
aos objetivos da pessoa, se é possível influenciá-la posteriormente, e
se ela "se adequa ao conceito que temos de nós e às normas sociais.
Inúmeras combinações dessas características determinam a enorme extensão
de nossos sentimentos. Segundo o psicólogo de Genebra, Klaus Scherer,
que nos últimos anos tem estudado o tema, no final das contas surge o
que ele chama de "um complexo modelo pro¬cessual das emoções" que,
resumido em linhas gerais, seria assim: quando ocorre um novo evento -
digamos, a primeira parada de mãos que você consegue realizar na vida
-inicialmente apenas a sua excitação interna cresce. Se o julgamento a
seguir lhe diz que essa sensação é agradável, você fica positivamente
surpreso,- se ainda perceber que o evento se ajusta bem aos seus
objetivos e contribui para melhorar sua auto-imagem, esse sentimento
acaba se transformando em orgulho. Do ponto de vista da psi-cologia
evolutiva, as emoções podem ser classificadas em quatro níveis:
pré-emo-ções, emoções básicas, emo-ções cognitivas primárias e
secundárias. As primeiras são formas prévias de emoções nas quais já
está presente a maioria de seus aspectos, começando pela excitação
fisiológica, passando pela rápida avaliação da situação, a mímica, a
sensação subjetiva apropriada e a orientação interativa. Elas, no
entanto, ainda permanecem genéricas e não estão clara e intencionalmente
voltadas para um objeto. Uma situação parece positiva ou negativa sem
que tenha sido analisada em detalhes. Nesse nível, portanto, existem
apenas duas possibilidades: bem-estar ou desconforto. Essas pré-emoções
continua |