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8 RECEBER E OFERECER CARINHO

 

O carinho tem um enorme impacto sobre o cérebro. Esse tipo particular de toque, com pressão moderada e movimento lento sobre a pele, é detectado por fibras nervosas especiais, que levam a informação à ínsula. A partir daí, os efeitos são distribuídos pelo cérebro: o hipotálamo diminui os níveis corporais de hormônios do stress, o locus coeruleus reduz sua atividade e a quantidade de noradrenalina - neurotransmissor que ativa os sistemas de alerta e vigília - que ele libera sobre o cérebro. Os músculos relaxam e, ao sentir o corpo menos tenso, o cérebro também "relaxa". Com menos stress para corpo e cérebro, aumenta a sensação de bem-estar. Com o tempo, os neurônios do hipocampo são mantidos mais saudáveis, já que sua atrofia ao longo dos anos adultos é diretamente relacionada ao stress - incluindo a solidão.

Do ponto de vista evolutivo, a expressão física do afeto aproxima as pessoas e leva à formação de vínculos sociais e afetivos. Um simples abraço pode ser suficiente, por exemplo, para fazer o cérebro aumentar a liberação de ocitocina, hormônio que facilita a aproximação entre pessoas. Além de ter efeito tranquilizante sobre o cérebro, reduzindo o nível de alerta e ansiedade, a ocitocina reduz medos e fobias, nos torna mais confiantes, e ainda oferece uma sensação de bem-estar ao estimular o sistema de recompensa.
Ao ser acariciado o bebê reconhece a presença de um outro que o aquece, protege e alimenta. Nessa fase, o afeto "ensina" o cérebro a formar uma resposta saudável ao stress. Também na vida adulta, o toque delicado é uma maneira poderosa de regular ansiedade e respostas exageradas ao stress de maneira geral. Mais curioso, contudo, é que o carinho se "propaga" de uma geração para a outra. Se a criança é tratada com carinho desde o nascimento, seu cérebro alcançará uma melhor "regulagem" do sistema de resposta ao stress, o que lhe dará mais chances de se tornar mais resistente a situações que causam medo e ansiedade. E também mais possibilidades de desenvolver relacionamentos amorosos no futuro.

 

 

ESTUDOS RECENTES mostram que relações estáveis estimulam a saúde mental e física e até prolongam a vida. Segundo psicólogos, os amigos íntimos são mais decisivos para nosso bem-estar psíquico. Pesquisa da Escola de Saúde Pública de Harvard, em Boston (EUA), mostrou que homens idosos com muitos amigos têm no sangue uma concentração muito menor da substância interleucina-6 (que causa inflamação e é considerada fator de risco para doenças cardiovasculares), na comparação com os homens mais solitários.
 

 
 

 

 

 

 

 

9 SOLIDÃO QUE FAZ ADOECER

 

Para seres sociais, como nós, ter companhia é mais do que um desejo: é uma necessidade, fundamental para o bem-estar. Curiosamente, essa necessidade não se dá tanto pela possibilidade de recebermos afeto efetivamente, e sim por sabermos que os outros estão lá, disponíveis e ao nosso alcance, mesmo que seja apenas para nos ouvir e oferecer um ombro amigo em tempos difíceis. Por isso, o isolamento prolongado costuma provocar sofrimento psíquico - e faz o corpo adoecer.
Estudos revelam que pessoas que cultivam relacionamentos conjugais harmoniosos e/ou têm amigos íntimos adoecem menos e vivem mais do que as que têm poucos relacionamentos afetivos. O impacto positivo direto dos relacionamentos sobre o bem-estar pode estar na regulação da resposta ao stress crônico. Se considerarmos que o próprio isolamento é para o cérebro uma fonte de stress, fica fácil entender por que as pessoas socialmente isoladas têm o sistema nervoso simpático - aquele que dispara a resposta ao stress - cronicamente hiperativo. Como a resposta crônica e intensa a vivências estressantes provoca hipertensão e leva à formação de placas nas artérias, essas pessoas têm de duas a cinco vezes mais riscos de sofrer de doenças cardíacas. No que talvez seja a descoberta da neurociência de maior impacto social da década, hoje sabemos como o contato social, na forma de abraços, beijos e carinhos, garante ao cérebro que você não está sozinho no mundo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Saiba mais: Cérebro em forma. Camila Ferreira-Vorkapic, em Mente&Cérebro 170, págs. 74-81, março de 2007.
Mentes brilhantes.
Philip E. Ross, em Sdentifk American Brasil 52, págs. 60-67, setembro de 2006.
Reflexo revelador.
David Dobbs, em Mente&Cérebro 161, págs 46-51, junho de 2006.
Melodia para os ânimos. Stéphanie Khalfa, em Mente&Cérebro 149, págs. 70-73, junho de 2005.

 

Fonte: Herculano-Houzel, Suzana. De bem com seu cérebro. Mente&Cérebro, São Paulo, n .19, p. 26-35.

 


 

 

 

 

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