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Perpétua Angústia

 

Uma das características que ajudam a

entender uma ação compulsiva é o prazer

no ato. Porém, o maior desafio está em

compreender atos compulsivos onde este

"encanto" não existe; nela, o que predomina

é a forma repetitiva e muitas vezes sem nexo.

 

Corre por aí a história de um senhor que, após ter "devorado" quase toda uma caixa de um quilo (!) de bombons de chocolate, vira-se para a esposa e diz: "Querida, tira esta caixa daqui. Estes bombons são meio enjoativos!"... Mas que danado, hein! Come dezenas de bombons para depois menosprezá-los! Histórias divertidas como essa nos trazem a compreensão de como a "compulsão nossa de cada dia" nos atinge, e como lidamos com ela.
Quem nunca se viu às voltas com a necessidade de controlar certos impulsos? Seja para comer, jogar, falar, comprar, e por aí vai a extensa lista de possibilidades de compulsão. O que as une é a presença do prazer no ato. Assim como a delícia dos bombons do personagem citado acima, que o fizeram comer até sentir enjoo, podemos encontrar em cada um desses atos compulsivos listados um prazer que, de certa forma, está presente e é facilmente identificável. O que com¬plica aqui é a percepção de que muitas vezes não podemos identificar esse prazer — pelo menos não à primeira vista — numa série de compulsões que atingem um sem-número de pessoas e que as fazem ficar presas num ato repetitivo, aflitivo e muitas vezes sem nexo. Tal é a característica da compulsão que queremos abordar.


Pensamos no jovem que não consegue largar seu videogame, mesmo sabendo que há algo que ele deseja muito fazer, diferente daquele jogo! Ou daquela moça que não consegue parar de arrancar seus cabelos, mesmo percebendo que está ficando com áreas de alopecia em seu couro cabeludo. Ou mesmo aquela famosa primeira-dama filipina, cujos milhares de pares de sapatos adquiridos ao longo de uma vida mostravam um aspecto do consumismo que beira a loucura, não é mesmo? Compulsão traz, então, o sentido de compelir, daquilo que compele, que constrange.
Mas como se definiria psicanaliticamente a compulsão? Laplanche e Pontalis1 dizem que é um "tipo de comportamento que o indivíduo é levado a realizar por uma coação interna. Um pensamento (obsessão), uma ação, uma operação defensiva, mesmo uma sequência complexa de comportamentos, são qualificados de compulsivos quando a sua não realização é sentida como tendo de acarretar um aumento de angústia."
E aqui temos a diferença em relação às situações comuns da vida: o compulsivo não consegue sair de sua roda-viva, de seu sintoma, porque isso acarretaria em um aumento de angústia para ele! É nesse viés que o trabalho psicanalítico se diferencia: enquanto não auxiliarmos o sujeito a encontrar outras formas de escoar seu excesso pulsional, a compulsão não se vai; ela fica ali a percorrer esses caminhos que se perpetuam!


CONSTRUÇÃO DE NOVAS VIAS


Freud, desde o princípio, dizia que um dos objetivos da terapia psicanalítica era justamente ampliar as vias de facilitação. Ele queria tirar o neurótico de sua prisão, ampliando suas formas de expressão, aumentando sua gama de saídas ante a angústia. Onde havia apenas um caminho, Freud propunha que oferecêssemos a oportunidade de construção de novas vias.
Em vez do insistir compulsivo ser em uma só descarga, buscar outras que aumente o arsenal expressivo do sujeito.

 

 
 

 

 

 

Muito de sua metapsicologia foi dedicada à compreensão do psiquismo e das formas como ele se estrutura para dar vazão à pulsão.
Mas voltando ao estudo da compulsão, escolhemos o dizer de Lowenkron2, que informa que "as características da compulsão são, em suma, as seguintes: sua estranheza em relação aos comportamentos ou às ações habituais do sujeito: a tendência para a repetição; a convicção de um desfecho desastroso se ela não for levada em conta, e a promessa de um alívio real se lhe for permitido o livre curso; (e) certa antinomia com os interesses do Eu." Achamos importante destacar esse último aspecto: na medida em que a saída compulsiva não se coaduna de todo com os objetivos do Eu, ela é vivida como um corpo estranho, algo a ser eliminado que o sujeito não consegue alterar.
Temos hoje uma grande batalha pela frente. O número de compulsões aumenta na esteira da forma como somos instados a viver. Como nos informa Dufour: o capitalismo avançado nos compele ao desapego, à falta de laços fraternos, ao descompromisso. A tal dama filipina mostra ser o ideal que o sistema capitalista aspira, ou seja, um sujeito sem um apego outro que o consumo pelo consumo: acrítico, compulsivo. Ao sujeito neurótico freudiano do século passado, surge agora a demanda pelo sujeito borderline: "Com efeito, é preciso que os fluxos de mercadoria circulem, e eles circulam ainda melhor porque o velho sujeito freudiano, com suas neuroses e suas falhas nas identificações que não param de cristalizar-se em formas rígidas antiprodutivas, será substituído por um ser aberto a todas as conexões. Em suma, levanto a hipótese de que esse novo estado do capitalismo é o melhor produtor do sujeito esquizoide da pós-modernidade. No entanto, ele não é o sujeito neurótico preso numa culpabili-dade compulsiva, mas, sim, um sujeito precário, acrítico e psicotizante, aberto a todas as flutuações identitárias e, consequentemente, pronto para todas as conexões mercadológicas.
Ao descrever certas características do pós-modernismo, Jameson3 diz: "O desaparecimento do sentimento da história, o modo como o nosso sistema social contemporâneo começou, pouco a pouco, a perder a sua capacidade de reter o seu próprio passado, [levou o indivíduo a] viver num presente perpétuo e numa perpétua mudança que oblitera o tipo de tradições que todas as formações sociais anteriores, de um modo ou de outro, tiveram de preservar."


VIDA PÓS-MODERNA


Algumas características da pós-modernidade, que ensejam patologias como as que pretendemos abordar, seriam instauradas pelo desamparo, a solidão e a falta de referências simbólicas aterradoras da contemporaneidade.
Outro dia mesmo uma mãe nos contava sobre seu filho de 3 anos, que desde os 2 anos já sabia identificar uma série de marcas de automóveis. Sua observação era que a televisão o transformara de tal forma que, antes de falar uma série de palavras comuns aos bebés, ele já havia sido bombardeado com os anúncios veiculados na mídia, permitindo, assim, associar marcas aos produtos que via na rua. Bebés que não têm sua atenção estimulada vão facilmente se apegar ao que está à volta, sendo a televisão um dos objetos mais atraentes que o homem criou. O problema aqui é a falta de afeto, de apego, deixando o indivíduo isolado e só.
Como nos diria Norberto Elias4, "O individualismo é uma ilusão que custa ao sujeito o esquecimento [recalque] não só de sua filiação, mas de sua pertinência a uma ou a várias comunidades, mais ou menos abstratas, de 'irmãos'
 


(1) LAPLANCHE, J.; PONTALIS, J.-B. Vocabulário da Psicanálise. São Paulo: Martins Fontes, 7 ed., 1983; p.123-124.
(2) LOWENKRON, T. - Compulsão, texto no site do congresso, www.febrapsi.org.br (3) JAMESON, F. - Reification et utopie dans ia culture de masse, Etudes
françaises, Volumen 19, número 3, hiver 1983, p. 121 -138.
(4) ELIAS,N., T/7e Civilizing Process. Sociogenetic andPsychogenetic
Investigations, Oxford, Blackwel, 2000.


 

Continua
 

 

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