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Parte 1

Parte 2

 

EM TRÂNSITO


Há fases em que o distúrbio, geralmente enquistado, parece romper a membrana do cisto e tomar a pessoa inteira; a matéria do cisto impregna-a totalmente. Neste caso, é como se não houvesse um ego capaz de fazer filtragem dos estímulos da vida, um ego que deseje, que selecione. E a conseqüência é a compulsão, para o comer, por exemplo, em que a pessoa come indiscriminadamente. Parece que só existe aparelho digestório. Melhor dizendo, só existe comida que entra e sai. sem ser digerida e transformada em alimento. O que conta é o tubo digestório e, mesmo assim, na sua função mais simples que é a de dar passagem. O alimento, tanto real quanto psíquico, está sempre em trânsito. Nada fica. Nada é retido. Nada é selecionado. Não há o que memorizar. Não há sofrimento e dor; ficam eliminados porque não existem.
As relações de conflito do cotidiano, então, são vividas não com o outro, com o meio social, mas com o próprio corpo, com seu organismo, na sua fisicalidade. A competição é vivida entre a pessoa e seu estômago, suas vísceras e sua necessidade de alimento. Nesta área, a pessoa sempre ganha a competição, porque é autoridade absoluta. Como o afeto é basicamente persecutório, o tratamento que vai dar a seu corpo em suas relações afetivas será da ordem da violência. Em relação ao seu corpo, tenta superá-lo, dominá-lo, subjugá-lo à sua vontade autoritária, isto é, à satisfação básica de realizar-se para si própria.
Se os afetos persecutórios não forem realizados na fisicalidade do seu organismo, o que acontecerá com sua mente? Se ela está esvaziada da estimulação externa e da vida interior de ser, se não é capaz de habitar mentalmente o próprio corpo, e se só lhe resta um mínimo de vida mental que é o viver na relação física e concreta com o corpo, nós podemos tirar essa sua única chance e possibilidade de ser? Não temos antes de possibilitar o desenvolvimento da interioridade, do ser psíquico, do estar no mundo? Em decorrência, esse tipo de recurso não se faria menos necessário?

 

 
 

 

 

 

 

Para que se possa dar conta da violência do cotidiano, não é necessário um ego integrado,
estruturado? E não dizemos que o ego se estrutura na relação com o outro? A questão é que esse outro, gerador de ego, precisa, por sua vez, estar estruturado.
No caso das anoréxicas, geralmente o afeto é vivido na mãe, e não é percebido como sendo dela própria, mas como sendo da mãe. Contrariamente, também pode ocorrer que a mãe viva o afeto na filha, que é vista como sendo parte da própria mãe, ou uma parte importante de si e não como uma filha, um outro com existência própria. Neste caso, ocorre uma invasão total da interioridade da filha. Observa-se que a vida de relação segue o modelo simbiótico entre mãe e filha, com uma despersonalização de ambas, que tentam preencher um vazio com elementos concretos e não com interioridade.
Cabe à Psicanálise desenvolver interioridade ali, onde só há concretude. Colaborar para o desenvolvimento de elementos psíquicos que se estruturem em forma de uma mente mais organizada, mais potente, com capacidade de sonhar, de encontrar soluções mais sofisticadas mental-mente para as dificuldades próprias da vida

 

Fonte: Bruno. Cassia A. N. B, (Ciencia & Vida apud Org.: BRUNO, Cássia A. Nuevo Barreto. Distúrbios alimentares. Uma contribuição da Psicanálise. Ed. Casa do Psicólogo. (No prelo, a ser lançado em abril de 2009). Org: VOLICH, Rubens. Psicossoma ///São Paulo: Ed. Casa do Psicólogo, 2007. FERNANDES, Maria Helena. Transtornos aíimentares. São Paulo: Ed. Casa do Psicólogo, 2007. URRIBARRI, Rodolfo. Anorexia e bulimia. São Paulo: Ed Escuta, 1999


 

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