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Parte 1

Parte 2

Com pulsão

e distúrbios alimentares

 

Para a Psicanálise, este comportamento

é uma articulação da mente

que não está suficientemente

preparada para enfrentar

o real e desenvolve recursos de fuga

 

O título, assim, com essa dupla conotação, é muito atraente para uma discussão que leva em conta essa ambigüidade.
Podemos entender com pulsão como: com vida (com pulsão) com energia e, concomitanternente, entender o oposto, (outro lado,) isto é: sem vida, sem energia. Dependendo da intensidade, a pulsão pode virar compulsão, algo como excesso de pulsão, a ponto de provocar uma quebra no sistema regulador dos afetos.
Com esta observação, podemos considerar que pulsão e compulsão são elementos da mente e ocorrem em diferentes intensidades e momentos da vida. Alguns perdem o equilíbrio emocional de forma muito grave, no entanto, não é o que acontece com a maioria, em que os danos não são excessivos. Todos temos condutas restritivas, fazemos dietas, exercícios, ou bebemos em festas, mas a compulsão é diferente, ela é o excesso de um determinado comportamento que está associado à descarga de tensão, de dor, de compulsão.
Como a dor psíquica não pode ser experimentada, ela é canalizada para a ação motora: a compulsão. Significa um agir angustiado, repetitivo, intenso, e que resulta na anestesiação da dor, transformando-a em dor corporal. O que é psíquico é vivido no corpo, como físico. Na verdade, o corpo vem em socorro da mente, entra em cena para protegê-la de uma dor psíquica insuportável.
Nem sempre temos uma mente suficientemente forte para suportar uma dor, um sofrimento, ou porque a mente encontra-se frágil, com estafa, ou porque a dor é grande demais, um trauma.
Desse ponto de vista já deu para perceber que a Psicanálise não visa à supressão, repressão do comportamento compulsivo. Seu objetivo é o fortalecimento da mente para que esta esteja apta a suportar maior intensidade de sofrimento sem precisar recorrer a esse tipo de defesa compulsiva.
Sabemos que a mente é o resultado da interação de recursos internos que são desenvolvidos em decorrência de solicitações internas ou externas.
Isso nos remete à idéia de que os distúrbios psíquicos são recursos mentais altamente sofisticados e desenvolvidos pela mente como meio de lidar com as exigências do real. Neste sentido, toda a humanidade lança mão desse recurso; o que varia é o grau de intensidade dos estímulos externos e a capacidade psicológica de desenvolver meios, mais ou menos adequados para lidar com tais exigências, e que variem em diferentes momentos da vida.
 

 
 

 

Todos nos utilizamos de mecanismos menos eficientes, no sentido de crescimento e desenvolvimento, em certas situações da vida; são os nossos pontos cegos. O que ocorre no atendimento psicanalítico é que, no processo de investigação da mente, as funções psíquicas vão se desenvolvendo e, consequentemente, tornam-se mais eficazes para lidar com suas dificuldades.

 

TEORIA FREUDIANA


Freud fornece esclarecedora informação sobre qual é a área que deve ser abordada pela Psicanálise: uma vez esclarecidos os alicerces da teoria freudiana, no caso das compulsões fica mais claro pensar o que ocorre nos distúrbios alimentares em relação à formação da mente. Os processos psíquicos nessa específica área da mente relacionada ao distúrbio alimentar - algo como um cisto, já que as outras áreas estão preservadas - são muito primitivos em relação ao desenvolvimento global da mente, no sentido de que os recursos para lidar com o real são escassos e pouco elaborados. Nessa instância, a organização mental se articula por meio de princípios rígidos, leis autoritárias, regras definitivas e fixas. Nessa área a mente funciona de acordo com o princípio do prazer, isto é, evitando desprazer a todo custo.
Podemos nos perguntar: o que provoca tanto desprazer nos distúrbios alimentares que faz a pessoa regredir a momentos tão primitivos do desenvolvimento psíquico?
De acordo com a teoria freudiana, observa-se que recursos mais evoluídos da mente estão impossibilitados, neste caso, de seguir seu curso natural. Diante de uma frustração, a dor é tão forte que o aparelho mental não consegue elaborar uma alucinação do prazer que vise a elaboração da dor. Esta condição é necessária para a percepção de emoções e de imagens as quais, armazenadas na memória, resultam em formulações disponíveis para a formação de pensamentos, o que implica na possibilidade de lidar com o real de modo a produzir respostas mais eficientes.
O que ocorre, ao contrário, é uma tentativa última de evitar o aniquilamento psíquico diante da dor. A pessoa desenvolve uma série de recursos intrinsecamente relacionados, que lhe garante não o conforto, mas a sobrevivência. Não uma boa solução, mas a acomodação possível.
Sabemos que, nos casos graves, a fragilidade da mente é tal que o simples existir é motivo de sofrimento, de desprazer. A frase de Guimarães Rosa em Grandes sertões: veredas: Viver é perigoso", nesta situação, é levada às últimas conseqüências.
As complexas nuances da existência, sutis e
microscópicas, que ocorrem quase despercebidamente para a maioria das pessoas, são experimentadas, nesses distúrbios, como a grande dificuldade. E a solução mágica e hipomaníaca encontrada é anestesiar-se na conduta compulsiva ou na desafetação.


 

Continua
 

 

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