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A diferença entre ler e aprender


Há mais de 2 mil anos, toda a cultura que um cidadão da Grécia Clássica acumulava durante sua vida inteira caberia num jornal de domingo da era atual.
A sede de saber é um atributo humano. O apetite pelo conhecimento e informação se origina na curiosidade da criança sobre sua origem; vem crescendo geometricamente desde a infância da humanidade. O saber transmitido oralmente por um filósofo ou sábio aos seus discípulos era muito difícil de ser guardado, catalogado. Os papiros, as pedras, o trabalho persistente dos monges copistas, nos transmitem uma versão distante da história daqueles tempos remotos.
A obsessão pelo conhecimento estimula a necessidade de mudança que existe em cada um de nós, para nos mantermos vivos como indivíduos e como espécie, descobrindo e transmitindo antes de morrermos. Estagnação é sinônimo de morte, de marasmo, de apatia.
Da tribo selvagem às universidades, pontifica a figura idealizada do sábio, o dono do saber. "Só sei que nada sei", dizia Sócrates. Isto quer dizer que a busca pelo saber não ter mina nunca. A maior sabedoria consistia em reconhecer que o saber era uma estrada da qual não se via o fim. A boa teoria é aquela que pode ser contestada, levando a novas respostas por meio da pesquisa e discussão.
Os debates públicos sempre fizeram muito sucesso com os contendores procurando surpreender um ao outro por meio de informações inéditas.


BABEL DE OFERTAS


Há alguns anos, o saber, que estava confinado a poucos afortunados frequentadores de bibliotecas e livrarias, ganhou as ruas por algumas publicações traduzidas, em bancas de jornal. Um pequeno número de revistas deu lugar a uma verdadeira explosão de imagens, termos científicos elaborados, curiosidades, literatura, desde física quântica até criação de cachorros e lutas marciais.
Se um viajante do tempo entrasse hoje na banca da esquina, não iria acreditar que aquela barraca onde comprava suas revistas e fascículos se transformou numa babel de ofertas.
Os fascículos semanais tinham um efeito curioso sobre o psiquismo do leitor: fazer que ele se imaginasse um bibliófilo, um imortal, cercado de volumes em que beberia na cultura completa do mundo. Ressalte-se aqui a palavra "completa". O formato atual traz justamente a ideia de um saber infinito, oceânico.

 
 

 

 

 


Os antigos programas de perguntas da TV, como O céu é o limite e Absolutamente certo, prometiam fortunas aos candidatos que se especializavam em determinados campos do conhecimento, devorando todo o material disponível sobre o assunto escolhido. Eles despertavam a admiração da plateia pela quantidade de informações que conseguiam assimilar e reter.
Os assuntos variavam desde a vida das formigas e figuras ilustres até a Bíblia.
Quem se propõe a estes desafios já traz previamente dentro de si o hábito ininterrupto da busca por informações novas. Filmes como o atual sucesso Quem quer ser um milionário?, dirigido por Danny Boyle e distribuído por Fox Searchlight Pictures e por Europa Filmes, são o avesso da compulsão pela informação. Aqui, o que importa são a inteligência e a experiência de vida a serviço do poder mágico da sorte, que atuam em favor do personagem principal. Jamal está mais para adivinho, à maneira do Edipo grego que decifrou as perguntas da Esfinge para não ser devorado. O público vibra porque se identifica com a esperteza e coragem do Jamal anônimo, não com seu saber obsessivamente acumulado. Triunfo retumbante ou sarjeta.
O que moveria a compulsão à informação? Como já foi dito neste artigo, o homem já nasce curioso. A criança explora avidamente seu mundo imediato e vai ampliando sua capacidade de observação, à medida que se desenvolve. Enfia o dedo nas tomadas, leva os objetos à boca, move os olhos em todas as direções, acompanhando as luzes e ruídos do ambiente, extasiada com as primeiras informações que vão se acumulando dentro de sua mente. Um dos maiores discípulos de Freud, o brilhante húngaro Sándor Ferenczi, escreveu um pequeno trabalho em 1923 intitulado "O sonho do neném sábio". Nele, Ferenczi diz que os pacientes adultos frequentemente relatam sonhos nos quais crianças pequenas, e até bebés, são capazes de ensinar aos adultos com extrema erudição e locução perfeitas. O tema não é inédito, já que aparece em vários mitos, inclusive na história do próprio Jesus Cristo, em que ensinava aos sábios do templo. Ferenczi interpreta que estes sonhos representam o desejo da criança de ultrapassar os adul¬tos em sabedoria e ciência, invertendo, assim, a posição de inferioridade. Um adulto que se sentiu humilhado na infância ou atualmente, também poderia desejar vingar-se dos que tivessem criticado suas palavras ou atos.

 

continua
 

 

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